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Dominação, submissão e sadomasoquismo.

June 4, 2018

 

Quando falamos de dominação e submissão, a grande maioria das pessoas relacionam estas posições ao sadomasoquismo. Está correto? Em parte sim, porém um grande erro é rotular todo dominante como sádico ou um submisso como masoquista. 

 

Para iniciar essa reflexão, é necessário esclarecer as origens e significados de cada nomenclatura/posição.

 

Os termos sadismo e masoquismo foram criados pelo Psiquiatra alemão Richard von Krafft-Ebing em sua obra “Psychopathia sexualis” (1885). Krafft-Ebing fez estudos sobre comportamentos sexuais e incluiu em sua obra conceitos sobre sadismo, masoquismo e fetichismo. Krafft-Ebing criou os termos sadismo e masoquismo, que foram baseados em estudos com relações não-consensuais. Inspirou-se nos romances de Donatien Alphonse François de Sade (1740 a 1814), para propor o termo sadismo. Sade, dentre outras obras, escreveu “A filosofia na alcova” e “Os 120 dias de Sodoma”, onde o prazer é alcançado com a violação da vontade do outro e da produção da dor que não é consentida. Para criar o termo masoquismo, tomou como base a obra de Leophold von Sacher-Masoch (1836 a 1895), cujo principal romance é “A vênus das peles”, onde Severino educa uma mulher (Wanda) para que o flagele por/com amor (SACHER- MASOCH, 1983).

 

Mais tarde Freud veio a unir os dois termos (sadismo+masoquismo, sadomasoquismo) acreditando que o sadismo seria a continuação do masoquismo voltado para si mesmo. Mais claramente, que todo sádico tem o potencial para ser um masoquista, obter prazer não apenas causando a dor, mas também a recebendo. Para Deleuze, o sadismo de Sade e o masoquismo de Masoch não são complementares. Pois acreditava serem mundos diferentes, com personagens que não se complementavam, opostos. “Cada personagem de uma perversão só precisa do elemento da mesma perversão, e não de uma pessoa de outra perversão” (DELEUZE, 1983).

 

A colocação de Deleuze está correta, no sentido de que se essas relações em que se baseou (Sade, Masoch) eram não consensuais, um não poderia complementar de fato o outro, pois não era uma atitude verdadeira de vontade própria.

 

Essas são as origens das definições de sadomasoquismo. O que não significa que seja uma verdade absoluta, mas que o início de pesquisas e interesse para com o assunto começou desde então. Hoje com pesquisas e esclarecimentos, existe uma organização de pessoas que se uniram para vivenciar seus fetiches de forma saudável. O BDSM (Bondage, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo) cuja principal base é o SSC (São, Seguro e Consensual). O que nos faz esclarecer que hoje, o significado correto de sadismo e masoquismo tem pontos diferentes.

 

Existe a definição de masoquismo dentro do BDSM, onde o masoquista obtém prazer recebendo dor, ou é levado a limites psicológicos de sofrimento dentro de uma relação consensual, quem pratica os atos que causam a dor, está de acordo.

 

Outra definição que podemos acrescentar ao masoquismo, mas não podemos relacionar a este primeiro, é o Masoquismo patológico.

É o tipo de masoquismo que requer algum tratamento e atenção especial. Pois é algo que pode ser prejudicial ao masoquista, como uma “auto destruição”. Um bom exemplo do masoquismo patológico é de uma mulher que é agredida pelo marido e se autopromove por isso. Ao invés de denunciá-lo e se proteger, se autopromove com pensamentos do tipo (eu sou a única mulher que suportaria isso, ou, eu sou uma mulher forte por me superar e segurar mais, e etc.).

 

Já com o sadismo, há aqueles que são sádicos, pois obtém prazer causando dor ou levando a limites psicológicos de sofrimento de forma consensual, e o sádico patológico, que é aquele que causa dor de forma não consensual, com agressões físicas, psicológicas e até vibrando por ver/saber do sofrimento de alguém. É o tipo de sadismo que requer tratamento, e cuidado. Pois um dos perfis que estão no sádico patológico é o estuprador, o torturador, dentre outros que oferecem perigo a sociedade.

 

Ou seja, dentro do BDSM o sádico e o masoquista, diferente da colocação de Deleuze que diz sobre personagens opostos, se complementam. Pois um tem o prazer em causar a dor, e o outro em receber. É uma relação consensual, e dentro do que é seguro, não causa danos à saúde física e psicológica dos praticantes.

 

Voltando a explicação da diferença entre dominantes, submissos, sádicos e masoquistas, é importante esclarecer que podem ser definições que se acrescentam, mas que não tem o mesmo significado.

 

O submisso é aquele que obtém o prazer se "anulando" dele. O prazer do submisso é dar prazer ao dominante, é abrir mão das suas vontades e escolhas (consensualmente), para satisfazer seus gostos. Um submisso pode receber práticas de spanking de seu dominador, mas pelo prazer de servir, e não porque gosta de sentir dor. Ele se supera para agradar a quem está dominando.

 

O masoquista é aquele que tem interesse na dor pelo próprio prazer. É quem obtém prazer de fato com a dor, e não está se submetendo a vontade do outro, mas está vivenciando algo de próprio gosto e escolha. Ele se supera, para seu próprio prazer. Ele quer isso cada vez mais, então ele tem o autocontrole. O contrário da submissão, que é a entrega do controle.

 

Um submisso pode ser masoquista? Sim, um submisso pode obter prazer entregando o controle, mas pode gostar da sensação de dor enquanto está em uma prática de spanking com seu dominante.

 

Já sobre a dominação e o sadismo, também não é diferente das definições anteriores. Um dominador não necessariamente precisa ser sádico para dominar. Práticas de dominação não consistem em sadismo. Apesar de ser algo que pode, sim, ser acrescentado durante uma sessão de dominação, não é o que a define. Um dominador domina uma situação, e uma situação não consiste apenas em dor ou limites psicológicos.

 

Resumindo, rótulos são sempre limitadores. O que nos ajuda na compreensão deste mundo são definições. Que podem ou não se complementar. Logo, dizer que um dominador deve ser de tal forma, ou dizer que um submisso também é de tal jeito, limita nosso campo de conhecimento das reais intenções e sensações de cada indivíduo que se identifica com definições distintas. E viva as diferenças!

 

Dominação, submissão e sadomasoquismo.

 Por Mistress Mahara.