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O fetiche transcende, ou reprime?

June 6, 2018

Chamo-me Mistress Mahara, e tenho 24 anos de idade. Sou Dominatrix profissional, e estudo o BDSM há cerca de 7 anos. Em todo este período, dedique-me a estudar sobre assuntos dentro do tema e relacionados. Afinal acho de extrema importância o conhecimento do que se faz, e do que se vive antes de exercer qualquer prática.

 

Longe de mim propor liturgias ou determinar uma verdade absoluta dentro do meio, venho com este texto, de forma mais didática, dentro de um conceito de estudos, e de forma mais técnica, abordar um assunto que abrange a todos nós: o fetiche. Espero que com este texto eu os ajude na compreensão inicial do tema e a quebra de tabus cuja conotação pejorativa a nossa sociedade propaga.

 

O fetiche é um dos itens de uma definição de comportamentos, impulsos sexuais, e fantasias não convencionais, alternativas. Mas, ao falarmos sobre fetichismo, precisamos saber o que vem antes.

 

Por isso, vamos abordar primeiramente o conceito de Parafilia. 

Parafilia vem do grego παρά, (para), "fora de”, e φιλία, (philia), "amor", “gosto de”, ou seja, gosto não convencional: sexualidade alternativa.

 

A parafilia é entendida como uma sexualidade caracterizada por impulsos sexuais, por fantasias e/ou comportamentos não convencionais. Os impulsos parafílicos podem ocorrer em situações raras, intermitentes ou compulsivas. Uma fantasia especial, com componentes conscientes e inconscientes, é o elemento principal da Parafilia. E a influência dessas fantasias e suas manifestações comportamentais, muitas vezes, vão além da esfera sexual. É impossível estabelecer uma lista definitiva sobre parafilias. As definições mais usuais listam comportamentos como o sadismo, o masoquismo, o exibicionismo, o voyeurismo, o fetichismo, e até comportamentos considerados destrutivos ou ameaçadores para o praticante ou outra pessoa, como a pedofilia, e a necrofilia, por exemplo.

 

De geração em geração, a sexualidade dissidente (sexualidade não reprodutiva) é fertilizada com muitos tabus, e as parafilias carregam muitas implicações morais, que inclusive já respingou e muito em diagnósticos feito por psiquiatras. Porém, como nos diz Gabbard (1998): “Poucos transtornos são carregados de tantas implicações moralistas quanto as parafilias. Determinar que um sujeito sofre de um desvio na área da sexualidade implica o estabelecimento de uma clara norma de conduta sexual. Quem irá estabelecer estas normas? A psiquiatria deve ser guardiã moral da conduta sexual? Podemos utilizar termos como desvio sexual, perversão, ou mesmo parafilia sem conotação pejorativa?”

 

Infelizmente são misturadas as parafilias graves e destrutivas com parafilias inofensivas dentro do assunto tratado por pessoas leigas, como se fosse uma definição negativa num contexto geral. Então este texto nos ajuda a compreender, e ter uma visão livre para os gostos e escolhas de cada um, desde que dentro da legalidade, e consensualidade dos praticantes. 

 

Voltando ao fetichismo, cheio de julgamentos moralistas e impiedosos, devemos lembrar que não deve ser relacionado diretamente ao sexo. O fetiche é a busca de uma sensação transcendente e/ou confortante (em aspectos psicológicos conscientes e inconscientes) por meio de uma parte do corpo, objeto ou ação específica.

 

Explicando de forma mais clara vou dar um exemplo: uma mulher sem muita vaidade que em seu dia a dia não gosta de usar maquiagem, toda vez que quer se sentir poderosa usa um batom vermelho. Ela gosta do batom vermelho, cintilante e cremoso. E para ela, aquele objeto com essas exatas definições, a fazem se sentir poderosa como deseja. Sempre que deseja esta sensação de poder, ela busca por este batom. Logo, ela está associando uma sensação que busca ao objeto (batom), e claramente não está associado ao sexo, mesmo que depois de passar este batom ela venha a se excitar, e tal estimulação torne propícia uma possível transa, cuja consecução dependerá de outras variantes, situação ou contexto.

 

A busca inicial (neste exemplo que é o “poder”) é a peça chave do fetiche ligado ao objeto. O fetiche só se torna “anormal”, alvo de diagnósticos, quando usado como único meio de forma obrigatória e compulsiva nas atividades sexuais, quando exclui completamente outras formas de prazer estando associados a outras experiências ou quando é autodestrutivo e prejudicial a quem pratica, ou participa dos atos do fetichista.

 

Tirando esse tipo de anormalidade, o fetiche para nós fetichistas serve para literalmente nos fazer transcender. Aumenta nossa capacidade da percepção do prazer, nos torna mais reflexivos sobre o conhecimento do EU (de si mesmo - self-knowledge), além de também aumentar a nossa capacidade de criatividade. Destarte, um fetichista encontra vários meios e situações onde o mesmo “objeto de prazer” pode ser usado de diversas formas, resultando em experiências diferentes e agradáveis por estarem associados a este “objeto” principal.

 

 

O Fetiche transcende ou reprime?

 Por Mistress Mahara.