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Podolatria ao pé da letra.

February 9, 2019

Atualmente, há um amplo conhecimento sobre a existência de um antigo fetiche: a podolatria. Com o acesso à informação online, e a repercussão cada vez mais presente produzida pela mídia, muitas pessoas que se identificam com este fetiche deixam de o guardar como segredo e procuram, cada vez mais, vivenciar as experiências proporcionadas pelo fetiche. Apesar da grande expansão e representatividade que os podólatras ganham a cada dia, o tema ainda conta com alguns tabus importantes no conhecimento desta prática.

 

Primeiro, quero deixar claro que o fetiche por pés, em si, não representa nenhum desvio de comportamento. Torna-se um problema quando o fetichista perde o interesse pelo parceiro, tendo como foco apenas o objeto de desejo. Ou quando outros aspectos dentro do fetiche sejam prejudiciais fisicamente ou psicologicamente ao praticante e/ou parceiro, ou quando não é consensual. 

 

Um bom exemplo do uso da podolatria como subterfúrgio e de forma abusiva ao outro é o caso de um americano (Michael Robert Wyatt) que é detido desde os anos 90 por praticar atividades não-consensuais ligadas a podolatria. O motivo de uma de suas detenções foi quando fingiu ser um podólogo para justificar um ato de acariciar e chupar os dedos de uma mulher dentro de uma loja de roupas, sem o livre consentimento dela, ou seja, um ato de violência de gênero.

 

A podolatria é um fetiche bem antigo, rico na quantidade de teorias sobre seu surgimento. Não sabemos com exatidão quando este fetiche começou ser percebido/vivenciado por alguém. Mas, segundo algumas teorias da evolução sexual do ser humano, em meados dos anos 1200 (Séc. XII) se começou a sexualizar os pés como uma forma de relação mais segura por conta da Sífilis que se alastrava na época.

Vale destacar ainda a tradição chinesa iniciada no século X chamada “pés de lótus” que consistia em deformar os pés para mantê-los com no máximo 10 cm de comprimento. Prática que, segundo a lenda, foi iniciada após o imperador Li Yu apaixonar-se por uma dançarina de pés bem pequenos, que dançava a tradicional “dança de lótus”. Então chinesas se tornaram adeptas da prática, a fim de assegurar um bom casamento com a estética dos pés.

 

O século XIX também teve seus critérios de beleza. Naquela época, mulheres se vestiam com roupas que cobriam seu corpo, possibilitando visão externa apenas de suas extremidades (mãos e pés). O que atraía atenção dos homens, e consequentemente, foi tema de muitos romances de caráter erótico.  Voltando um pouco mais no tempo, no século XVII, os padrões de beleza se destinavam aos pés. Tinham de ser pequenos e finos.  O que chegava a distinguir privilégios de grupos sociais, separando mulheres da sociedade, que pouco caminhavam, com as trabalhadoras do campo e escravas, que tinham os pés grande e largos.

 

Um dos primeiros passos em direção a conquista amorosa das mulheres foi a sedução com os pés. Descalçar delicadamente seus sapatos, afagos com os pés por baixo da mesa e o que conhecemos hoje como “Dangling” (balançar um calçado com os pés), foram práticas essenciais muito frequentes em épocas mais antigas.

 

Os tabus sobre o fetiche foram criados e fertilizados conforme a evolução dos conceitos de valores humanos. O que explica toda a negatividade com que o assunto era disseminado em tempos quadrados de moralismo, e a libertação gradativa nos tempos de hoje, quando todos esses conceitos moralistas são questionados.

 

A podolatria não é necessariamente ligada ao BDSM. A podolatria pode ser abordada como um fetiche sexual, fetiche estético, e por fim como parte de um contexto específico dentro do BDSM, como a Dominação ou Submissão.

 

Dominação? Sim, dominação. Como descrevi, podolatria é um fetiche que pode ser acrescentado em contextos diferentes. Assim como um podólatra pode ser submisso e gostar de práticas com os pés ligadas a humilhação, veneração, etc., um podólatra também pode ser dominador e adorar os pés de sua submissa a fim de satisfazer seus próprios desejos. Bem como um podólatra também pode não estar ligado ao meio BDSM. É um fetichista que encontra as sensações que busca no pé por si só. Sem algum outro contexto ligado à prática.

 

A Podolatria é um fetiche cheio de práticas e vertentes. Uma das práticas mais comuns é beijar os pés, acariciar, massagear, lamber, chupar e até ser estimulado sexualmente através da masturbação (footjob).  Existem práticas como o trampling (ser pisado), o crush (comer alimentos pisados), e diversas outras. Assim como toda a esfera fetichista, a criatividade para desenvolvimento de diversas práticas é ligada as necessidades do fetichista, seus conhecimentos, experiências e posição reconhecida no momento da ação (fetichista, dominador, submisso).

 

Segundo alguns estudos, os pés são uma das principais fontes de fetiche dos homens.

Por outro lado, é um fetiche que não atinge apenas homens, mas, apesar de minoria, há sim mulheres podólatras.

 

Em minha concepção, podólatra não é apenas aquele que gosta de adorar os pés. Mas podólatra também é quem tem prazer em ter os pés adorados, e sente a importância da execução da prática.

O podólatra pode ter atração/admiração por pés descalços, calçados, sujos, com unhas claras ou escuras, com meias, e por diversos outros critérios e gostos.

 

Sendo assim, resumimos que não se deve rotular a podolatria (afirmar que todo podólatra é do sexo masculino, submisso, tarado, etc.) bem como é errado rotular qualquer prática fetichista e/ou sadomasoquista. A única regra que devemos compartilhar, seja lá em qual esfera for, é a de que TODAS as relações devem ser Sãs, Seguras e Consensuais (SSC).

 

Podolatria ao pé da letra

 Por Mistress Mahara.